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A guerra do clima

A guerra do clima

Michael Mann, investigador americano que se tornou famoso, e controverso, por afirmar em 1999 que a temperatura da Terra estava a subir com a forma de um stick de hóquei, publicou um livro a que chamou “A Nova Guerra do Clima”. Esta colocaria de um lado os convertidos e do outro os céticos climáticos, sendo a convicção sobre o papel dos gases de efeito de estufa no aquecimento global, a determinar o futuro. Nada de mais enganador. A verdadeira guerra do clima é aquela que se está agora a travar em todas as latitudes pelo controlo das matérias-primas necessárias à transição. Esta vai estender-se a toda a Terra, haverá perdedores e ganhadores, e as matérias-primas não chegam em tempo útil para tudo nem para todos.

O desenvolvimento de fontes renováveis de energia e a eliminação progressiva das energias fósseis é transversal a todas as sociedades e sistemas políticos. Xi Jinping, dirigente do país que é sempre visto como o pior exemplo no que ao clima diz respeito, disse num discurso proferido a 13 de junho de 2014: “… temos de revolucionar a tecnologia energética e melhorar a estrutura industrial conexa. Devemos incentivar a inovação na tecnologia, na indústria e nos modelos empresariais, e prosseguir um desenvolvimento energético verde e de baixo carbono, adaptado às nossas condições nacionais e adaptado às tendências internacionais positivas da revolução tecnológica energética”. Definiu 2060 como o objetivo para atingir a neutralidade carbónica prevendo o pico das emissões atingido em 2030.

Para conseguir alcançar estes objetivos, a China está hoje a construir mais capacidade de produção de eólica e fotovoltaica do que o resto do mundo. A produção destes tipos de energia renovável é já mais de quatro vezes superior à sua equivalente europeia. Todos os prazos estão a ser antecipados. Sendo ainda o maior emissor mundial de gases de efeito de estufa, em particular pela utilização do carvão de que dispõe para esta fase de transição, e apesar das acusações repetidas de que tal estratégia não realiza a transição, as ultrapassagens sucessivas das metas mostram exatamente o inverso: que a transição economicamente sustentável é a médio prazo a mais realista, e que o caminho para a descarbonização tem que ser determinado pela sensatez e não pelo ativismo.

A União Europeia mostra um percurso simétrico. Definiu como objetivo a neutralidade carbónica em 2050, com o passo intermédio de cortar 55% das emissões até 2030. Declarou a “emergência climática” e assumiu um papel liderante nas Conferências das Partes realizadas por iniciativa das Nações Unidas, dando palco alargado aos diferentes ativismos. Mais recentemente aprovou a Lei do Clima e desenhou um Mercado do Carbono para promover a transição energética à força de impostos. Apesar da redução de emissões, a indústria automóvel europeia realizou uma adaptação lenta e hoje, afastada da primeira linha dos construtores automóveis, vê-se obrigada a pagar créditos de carbono à Tesla, pela aplicação das regras que a si mesmo a Europa impôs. É um importador crescente de veículos elétricos chineses. Todos os prazos estão a ser sucessivamente recalendarizados.

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A administração americana está a seguir um terceiro caminho, diferente daqueles dois. Mantém um discurso político que nega a mudança climática, e está a executar uma estratégia de confrontação com o sistema internacional, talvez para ganhar margem para ações mais radicais que considera necessárias e planeia fazer. Contudo, o principal conselheiro do Presidente baseia uma parte importante da sua ação e da sua fortuna na promoção da mobilidade elétrica. Também aqui o futuro está traçado, apesar do papel que as energias fósseis irão ter para lá chegar. A utilização do nuclear para a produção elétrica mantém-se e pequenos reatores nucleares podem alargar-se aos centros de dados que sustentam os sistemas de inteligência artificial.

As três estratégias são diferentes, mas todas elas passam pela necessidade de matérias-primas que são finitas e estão mal distribuídas no mundo. Uma atenção especial tem sido dada às chamadas terras raras, que correspondem em parte ao grupo dos lantanídeos da tabela periódica, a que se junta habitualmente o ítrio e o escândio. Alguns destes elementos químicos possuem propriedades elétricas, magnéticas ou eletroquímicas que os tornam necessários para a fabricação de produtos de alta tecnologia. São necessários para a produção de turbinas eólicas, de painéis fotovoltaicos ou de veículos elétricos. Para além delas, o alumínio, o cobalto, o lítio, o manganês, e o níquel são constituintes essenciais das baterias e o seu consumo deve crescer mais de quatro vezes até 2050. Três quartos destes recursos estão concentrados na China, nos Estados Unidos e em Myamar.

A posição de cada um destes três blocos é muito diferente. A China, que não possui produção de hidrocarbonetos suficiente para as suas necessidades, controla no seu território oitenta por cento das terras raras de que já foi grande exportador, mas hoje conserva para uso próprio. Procedeu à integração na sua cadeia logística global de explorações mineiras em todo o mundo através da iniciativa designada como “Nova Rota da Seda”. Dado o seu papel dominante no acesso às terras raras, a situação tornou-se tão crítica que a exploração em territórios quase pristinos está a ser equacionada por outros atores. É o caso do Ártico, da Amazónia, da Gronelândia ou mesmo da Lua.

Os Estados Unidos que sempre mantiveram uma atitude de compromisso no que respeita à exploração de hidrocarbonetos no seu território, e que possuem no seu território uma parte significativa, mas não suficiente, das matérias-primas críticas, cobiçam agora o lítio ucraniano, os recursos minerais do Canadá e da Gronelândia. A Europa tendo desenvolvido uma imensa atividade regulatória que restringe de forma radical a exploração mineira no seu território, não parece capaz de assegurar o acesso às matérias-primas críticas de que necessita, repousando no acesso através do mercado global.

E nós, neste jardim à beira-mar plantado, unido politicamente à Europa, sempre olhando para os Estados Unidos através do Atlântico, mas com uma ligação histórica à China? Vamos imaginar por um momento que queremos ser sérios na relação com a União Europeia. Então, temos de minerar mais longe e mais fundo em busca de matérias-primas e temos de participar no esforço da União para assegurar a independência estratégica. Se quisermos honrar a relação transatlântica, então temos de procurar compreender os matizes da ação da administração americana e manter vivas as relações económicas, culturais e científicas que nos são benéficas e nos diferenciam. Se finalmente consideramos que a China é um ator liderante do presente e do futuro, devemos ser capazes de pensar o tempo de uma forma menos ocidental e reforçar os laços que ainda nos unem, em todas as áreas que contribuam para a modernização do nosso tecido industrial, como aparentemente estamos a fazer. Somos muito pequenos perante a dimensão do problema e a magnitude dos valores que estão em causa. Tal como no passado longínquo, podemos procurar reduzir essa desvantagem multiplicando os pontos de contacto e os canais de cooperação.

A guerra do clima é aqui que está a ser travada. Não tem a ver com convicções nem com bons ou maus princípios. Não se baseia na avaliação do papel do dióxido de carbono, ou sequer na responsabilidade da revolução industrial na mudança do clima. Esse comboio já passou, independentemente do que cada um pensa. Tem a ver com o papel que cada país quer ter no novo mundo, descarbonizado, eletrificado, moldado pela inteligência artificial e talvez pela supercomputação quântica, que já se vislumbra. Cada vez mais global, e onde as fronteiras, que a política nacionalista vai construir no curto prazo, terão a mesma resistência ao sopro do tempo, que as casas dos três porquinhos, como conta a fábula da nossa infância.

observador

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