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90% quer Educação Sexual tanto em casa como na escola

90% quer Educação Sexual tanto em casa como na escola

Há uma semana, 43.899 estudantes descobriram onde é que vão prosseguir os seus estudos no ensino superior. Os resultados da primeira fase do concurso nacional de acesso de 2025 revelam uma descida de alunos na ordem dos 12,1%. Os dados do Ministério da Educação, Ciência e Inovação mostraram ainda que 63,1% dos estudantes foram colocados na sua primeira opção e 90,9% numa das suas três primeiras opções de candidatura, o que representa "os valores mais elevados dos últimos anos" e, de acordo com a tutela, "um dos fatores mais relevantes para o sucesso académico".

Entre estes estudantes, há a forte possibilidade de que tenha sido a vocação ou o interesse pessoal a pesar mais no momento de escolher o curso em que podem ou não ter ficado colocados — isto apesar de, quando comparados com as gerações mais velhas, os mais novos tomem as suas decisões tendo cada vez mais em conta o peso das saídas profissionais no futuro.

Estas e outras conclusões surgem do inquérito feito em parceria com a Netsonda em que o Observador revela qual é a realidade da Educação em Portugal. As pessoas têm um curso superior? Como é que o escolheram? Tiveram de trabalhar para sustentar os estudos? Cruzando informação recolhida em seis regiões do território continental (Grande Lisboa, Grande Porto, Litoral Centro, Litoral Norte, Interior Norte e Sul), e analisando as respostas dadas pelas diferentes gerações, estes são os principais resultados.

Educação Sexual deve ser dada nas escolas e em casa, advogam 90% dos inquiridos

O tema tem estado no topo da agenda mediática desde que o ministro da Educação, Ciência e Inovação anunciou alterações ao currículo da disciplina de Cidadania. A sexualidade era um dos doze domínios obrigatórios da disciplina mas, quando o Ministério revelou as mudanças, não integrava as novas Aprendizagens Essenciais que a passaram a nortear. Porém, tal não quis dizer que o tema da Sexualidade tenha saído da disciplina de Cidadania: é abordado na mesma, e também faz parte do currículo de várias outras disciplinas, como já acontecia.

“Seria um retrocesso enorme se a educação para a sexualidade saísse das escolas e da formação dos alunos. E se isso fosse verdade, o clamor que surgiu faria sentido”, assegurou o ministro em conferência de imprensa no final do mês de julho.

Sendo um dos assuntos do momento, a Netsonda também questionou os 800 inquiridos sobre as suas opiniões. Apesar de existir uma grande polarização sobre o tópico na esfera política e também nas redes sociais, os resultados do estudo não representam esta mesma realidade. No que diz respeito à Educação Sexual, 90% dos participantes considera que esta deve ser abordada tanto na escola como em casa. Esta opinião é partilhada, de forma geral, transversalmente entre as diferentes gerações, escalões de rendimento e regiões do país.

Existem algumas discrepâncias nas respostas, mas nenhuma que seja significativa. 10% dos homens diz que a responsabilidade deve ser exclusivamente da família — ao passo que apenas 5% das mulheres concorda — e outros 3% de homens, no outro lado do espetro, diz que o tema deve ser tratado apenas no contexto escolar. Para o investigador Pedro Freitas, os resultados do inquérito revelam uma “distorção daquilo que é o debate público e o que as pessoas pensam”.

De acordo com o especialista em economia da educação da Universidade de Oxford, além de serem importantes os conteúdos lecionados nesta disciplina, é também urgente saber quem é que os vai apresentar aos alunos. “É importante discutir quem é que tem esta formação dentro da escola, quem são os professores que podem levar esta formação. Muitas escolas, por vezes, vão buscar à comunidade instituições que possam fazer esta formação dentro das escolas”, exemplifica o investigador ao Observador, referindo que “muitas escolas vão buscar aos centros de saúde profissionais treinados para irem às escolas falar sobre estes temas”.

Assim, reforça que o “debate sobre a educação sexual nas escolas está um bocadinho desfasado” da realidade no terreno, referindo que se devem preocupar também com as habilitações dos professores que estão a ensinar estes conteúdos aos alunos. “Mais do que a discussão do que deve existir ou não deve existir, [devemos debater] como é que podemos fazer esta formação mais rica e mais abrangente, até para fora da escola”, acrescenta.

Vocação fala mais alto na escolha do curso superior, mas jovens estão mais atentos às saídas profissionais

De todos os inquiridos, apenas 14% está atualmente a frequentar um curso de ensino superior. Apesar de a maioria (46%) ser composta pela Geração Z, ainda 10% dos Millennials e 5% da Geração X continuam envolvidos no meio académico. De uma forma geral, 46% dos participantes do estudo frequentaram e concluíram algum curso superior. Quando foram questionados sobre como escolheram o curso, seja quando terminaram o ensino secundário ou já num grau mais avançado, as respostas obtidas passaram essencialmente por dois critérios.

Rendimento Mensal Líquido

Até 1.000€

1.001 - 1.500€

1.501 - 2.000€

2.001 - 3.000€

Mais de 3.000€

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Fonte: Netsonda

65% das pessoas escolheram a sua área de estudos por vocação e interesse pessoal. Este fator manifestou-se crucial na hora de decisão para as gerações mais velhas, estando representados 91% dos Baby Boomers e 70% da Geração X. Já os mais jovens, embora também deem grande importância à vocação (62% na Geração Z e 59% nos Millennials), existe uma consideração mais notável pelas opções de saídas profissionais do curso. Desta forma, ao contrário dos que têm mais de 60 anos (9%), 31% dos jovens até aos 28 anos teve em conta as perspetivas de futuro associadas às matérias que decidiram estudar na Universidade.

Pedro Freitas, investigador na Universidade de Oxford e do Centro de Economia da Educação da Nova SBE, assinala que esta diferença geracional é “um efeito natural do aumento da oferta de licenciados”. Em declarações ao Observador, o especialista refere que existe uma clara discrepância no peso do diploma recebido “há 30 anos” com o de atualmente, o que significa que “quando se escolhe o curso, tem que se olhar mais para os retornos, uma vez que há uma maior oferta de licenciados e, portanto, mais licenciados a que as empresas possam recorrer”.

Ainda dentro deste tema, apenas 6% dos questionados pela Netsonda revelaram ter sido influenciados ou pressionados pelos familiares a decidir o curso no Ensino Superior. Neste sentido, também é possível observar uma diferença significativa entre géneros. De acordo com o estudo, as mulheres valorizam ainda mais a vocação e o interesse pessoal na escolha do curso superior do que os homens (70% vs. 59%). Assim, é possível concluir que os homens e as gerações mais novas se unem nesta abordagem, dando maior peso às saídas profissionais e à empregabilidade.

Geração Z (18 - 28 anos)

Millennials (29 - 44 anos)

Geração X (45 - 60 anos)

Boomers (61 - 64 anos)

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Fonte: Netsonda

Mesmo com uma longa ponderação antes da escolha, 19% dos inquiridos revelou ter mudado de curso no decorrer da vida académica. Na sua maioria (77%), transcendendo qualquer diferença demográfica, as pessoas mantiveram-se firmes na área que optaram seguir no início do percurso estudantil superior. Entre gerações, os mais novos decidiram mais afastar-se da escolha inicial de curso (22% entre a Geração Z e 23% entre os Millennials) quando comparados com os mais velhos (9% entre os Baby Boomers).

Independentemente de como escolheram a área ou se trocaram de estudos in media res, os dados mostram que os cursos são quase sempre terminados. Entre os que não estão atualmente a frequentar o Ensino Superior, 88% recebeu o diploma de obtenção do grau.

Para o investigador consultado pelo Observador, estes dois números — os 19% que trocam de curso e os 12% que acabaram por não terminar — devem ser uma “chamada de atenção” para o trabalho que é feito nas escolas para a orientação vocacional, tanto na passagem do 9.º para o 10.º ano, como na passagem do Ensino Secundário para a Universidade. Com uma “percentagem relativamente elevada” de alunos que não terminam ou mudam os estudos, Pedro Freitas admite que “se calhar a oferta de orientação vocacional é escassa e está a ser insuficiente para informar os alunos acerca das opções que têm”.

Maioria dos trabalhadores-estudantes recebe acima do salário médio. Mas falta de rendimentos ainda pesa na conclusão do curso

Dentro dos restantes 12% que acabaram por não concluir os estudos encontram-se as pessoas com rendimentos mensais mais inferiores. Daqueles que recebem menos de 1.000€ por mês, 21% não terminou o curso. Nesta métrica, nota-se uma correlação direta entre os que auferem salários maiores e a taxa de conclusão do Ensino Superior, com 93% dos inquiridos com rendimentos superiores a 3.000€ a terminá-lo.

De acordo com o investigador Pedro Freitas, “o fator de poder mostrar um diploma tem enorme impacto no mercado de trabalho” e, por isso, aqueles que não concluem os estudos acabam por “enfrentar um mercado de trabalho segmentado”.

Os menos assalariados são também os mais presentes entre os que tiveram de interromper os estudos por motivos financeiros, com cerca de 24% da população a travar temporariamente os estudos, mas acabando por regressar. Apenas 8% do total dos inquiridos teve de o fazer. “Se estes alunos deixaram os cursos porque não tinham rendimentos, significa que vinham de famílias mais pobres. E, portanto, a forma de poderem passar a ter rendimentos superiores à geração dos seus pais era licenciando-se”, esclarece o especialista, concluindo que esta percentagem de interrupções sinaliza um “indicador de persistência intergeracional de pobreza”.

É algo notado nas conclusões da Netsonda: hoje em dia, entre os agregados dos inquiridos que conseguiram conciliar os estudos com trabalho, 65% obtém rendimentos superiores a 2000€ e 54% recebe abaixo do salário médio. Cerca de 30% de todos os inquiridos que fizeram ou fazem um curso superior beneficiaram do estatuto trabalhador-estudante e 57% nunca teve que parar de estudar por razões económicas.

Muitos dos inquiridos acabaram por se deslocar da sua residência familiar ou de onde viviam quando chegou a altura de se matricular no Ensino Superior. Durante o seu percurso académico, cerca de 3 em cada 10 estudantes (31%) tiveram de mudar de habitação para se aproximar da instituição onde estudavam. “Sinaliza, claramente, que os alunos procuram o curso e a instituição que acham que é melhor para o seu perfil e para as suas ambições”, acrescenta Pedro Freitas, apontando também para a crise habitacional que se agravou nos últimos anos. “De que forma é que esta crise está a limitar aquilo que é a vontade das gerações mais jovens de ir para o sítio onde acham que o curso é o melhor para si”, continua.

A percentagem, como é de esperar devido à elevada presença de Universidades nos grandes centros urbanos e no litoral do país, é superior fora da área da Grande Lisboa e Porto. Os inquiridos que residem hoje em dia no Sul e Interior Norte são os mais afetados, pois 42% e 41%, respetivamente, teve que mudar de habitação para estudar.

Percentagem de pessoas que respondeu "Sim", por região de residência

40% 35% 30% 25% 20% 15%

Fonte: Netsonda

“Há muitos cursos que não existem em algumas zonas do interior do país”, reforça o investigador da Universidade de Oxford, sublinhando que a elevada taxa de mobilidade — seja na mesma cidade, distrito ou até mesmo do sul para o norte — “é muito dominada pela oferta, sobretudo a oferta de alguns cursos e de algumas instituições estar localizada nos centros urbanos”. Aponta, também, para uma falta de residências estudantis que poderá também estar a “tornar as escolhas mais condicionadas”. Em Lisboa e no Porto a percentagem é consideravelmente menor, com apenas 22% e 24% dos inquiridos a serem obrigados a mobilizar-se para estudar, respetivamente.

Formações e vida profissional: emprego para a vida ou mudanças periódicas?

Independentemente de estarem ou não a estudar atualmente, quase todos os inquiridos valorizam a formação ao longo da vida. Cerca de 65% consideram o percurso académico muito importante e outros 30% apenas importante, perfazendo assim cerca de 94% de pessoas que atribuem um grande valor à universidade ou à instituição de ensino por onde passaram. Mesmo com esta satisfação quase universal, continuou, nesta população, uma sede por adquirir diferentes conhecimentos — seja dentro da área em que exercem profissionalmente ou não — e, com isso, surge a necessidade de procurar diferentes tipos de formação.

O mais comum e valorizado entre a totalidade dos participantes é a formação técnica/profissional (63%). Num segundo lugar muito próximo (62%) segue a formação contínua no contexto laboral. A formação académica universitária — considerada por 94% da população como importante ou muito importante — aparece apenas em terceiro lugar, com 53%.

“Há, obviamente, a questão da proximidade àquilo que as pessoas fazem no dia-a-dia”, explica Pedro Freitas, remetendo para o conceito: “Faço uma série de coisas no curso superior, que depois não têm qualquer aplicação na minha vida profissional”. O especialista consultado pelo Observador menciona ainda o facto de haver ainda “evidências muito mais solidificadas” de que “estudar quando se é jovem tem impactos mais tarde quando se entra no mercado de trabalho” — justificando a valorização que é dada ao percurso académico — e, ao mesmo tempo, “de forma talvez paradoxal”, nem sempre “temos evidência que a formação contínua ao longo da vida tenha impactos positivos nos rendimentos futuros”.

O top 3, apesar de variável entre si, é bastante unânime entre gerações, escalões de rendimento e regiões. A avaliação muda especialmente quando se olha para a autoaprendizagem que, na população geral, é valorizada por 32%, mas bastante mais apreciada entre os mais jovens. 46% dos participantes da Geração Z dizem dar mais valor a tutoriais, livros ou vídeos do que a workshops ou cursos de curta duração (35%). Em contraste, a ordem surge trocada nas gerações mais velhas, com apenas 21% dos Baby Boomers e 26% da Geração X a manifestar a importância que a autoaprendizagem tem no seu dia a dia.

De todos os profissionais ativos que responderam ao inquérito, 70% diz ter participado em múltiplas formações — com 28% a afirmar ter tido poucas e os restantes 2% alegam não ter tido qualquer formação a nível profissional. Destes que tiveram a oportunidade de participar em momentos de formação ao longo da carreira, à semelhança do que se verificou para a questão colocada para a vertente académica, dizem considerar estas ações muito importantes (46%) ou importantes (44%).

Olhando para a carreira e não para o tema da educação, 43% dos inquiridos concordam que é bom ter um emprego para a vida, enquanto, em contrapartida, outros 41% mostram ter preferência por mudanças no meio laboral. 21% diz gostar de mudar de área de trabalho “ocasionalmente” e os restantes 20% optam por alterar apenas o local onde exercem, permanecendo no mesmo setor de atividade. Esta prática é mais comum entre os jovens. Apenas 27% dos Baby Boomers admite querer mudar — seja a área ou o local de trabalho —, ao mesmo tempo que 42% da Geração Z adota este estilo de vida.

Existe ainda uma terceira opção, que é das mais escolhidas entre os que têm mais de 60 anos. 38% dos Baby Boomers referem não pensar muito sobre o tema de emprego para a vida vs. mudanças periódicas, que contrasta fortemente com a postura demonstrada pela Geração Z e os Millennials, onde apenas 13% e 12% replicam a resposta dada pelos mais velhos.

Este inquérito foi realizado pela Netsonda em colaboração com o Observador, entre os dias 7 e 11 de agosto de 2025. O estudo foi realizado através da aplicação de um questionário online junto do painel Netsonda. O universo-alvo é composto por uma amostra representativa de indivíduos com 18 a 64 anos residentes em Portugal continental. Os inquiridos foram informados do objetivo do estudo e demonstraram vontade de participar. Foram recolhidas 800 entrevistas online (CAWI). Esta dimensão amostral está associada a uma margem de erro de 3,46%, com um nível de confiança de 95%.

observador

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